A dissonância será bela

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terça-feira, 23 de novembro de 2010

Tropa de Elite 2

Qual é a explicação pro fato de a corrupção permanecer, independentemente do partido ou pessoa que está no governo? Há alguma coisa, por trás, que permite e, mais do que isso, estimula tal corrupção. Os corruptos só o são pois existe quem o corrompa, uma força muito maior, uma elite aquisitiva que, em busca de privilégios e manutenção da sua supremacia e seu status quo, se serve de milhares de mazelas e, ENTRE ELAS, a corrupção, seja de políticos, fiscais ou policiais. É uma busca pelo poder e pelo sucesso que, direta ou indiretamente, faz uso de atitudes anti-éticas e, mais do que isso, desumanas, objetivando unicamente o benefício próprio. Quem corrompe é o empresário, quem é corrompido é o político sem ideologia que se deixa levar pela ambição (logo, pertence à mesma laia do primeiro). O político corrupto é só um meio para garantir alguns privilégios. E no final de tudo, quem/o que se fode é aquilo e aqueles que as elites querem ver bem calados, comportados e produtivos, inermes de legislações ambientais, trabalhistas e tributárias, impossibilitados da oportunidade de uma melhora. Por mais que sejam eleitos partidos (teoricamente) esquerdistas, a desgraça nas camadas mais baixas permanece e os mais ricos surfam no excesso, no lucro, na tecnologia. Não importa quantas políticas sociais como o Bolsa Família sejam criadas e aumentem um pouco a qualidade de vida dos mais pobres, a diferença social permanece. O mais rico fica cada vez mais rico. Não importa quem esteja no comando, não importa o que "eles" tenham que enfrentar. Por que? Porque quem tem mais poder, quer mais poder. E, nessa busca, quaisquer valores éticos podem ser desconsiderados (seja consciente ou inconscientemente). Mas, afinal, do que vale ser reconhecido, se tal elite não conhece as próprias características? Do que vale ter uma casa grande, celular, computador, carro, status, se tem ideologias que deveriam ser escondidas?
O Tropa de Elite 2 descriminaliza a favela, completamente. Por que?
O que José Padilha quis fazer foi deixar muito claro que o real problema com o qual devemos nos preocupar NÃO É o tráfico e a violência gerada por ele e por toda a bandidagem. E SIM, a existência dele, olhando sempre pelo lado externo da lupa: aquilo (ou aqueles) que POSSIBILITA a existência do mesmo. O tráfico, a violência e as mortes NÃO VÃO acabar enquanto eles puderem surgir de novo. A desigualdade, a miséria, a ditadura do capital e do poder, a existência SIM de uma elite que quer drenar o mundo até sua última gota e lidar com as conseqüências - fruto dos próprios atos - da forma que vimos no primeiro filme: com violência, com polícia na rua dando porrada em bandido, subindo em favela, batendo em civil (porque, afinal, eles são só aquela camada de fantasmas pelos quais passamos todos os dias, que vão aos bairros nobres limpar privada de rico), matando os favelados, oprimindo com a mídia. A mídia faz parte dessa elite. E, para a elite, pouco importam os direitos humanos ou qualquer tipo de valor. Se estiver alguém no caminho, alguém que impeça uma constante ascensão, que tal pessoa morra!

Frases como "São Paulo e o sudeste deveriam ser separados desses pobres, que impedem que o Brasil seja um país de 1o mundo", "Os nordestinos impedem o desenvolvimento do Brasil, com aqueles vagabundos que só querem Bolsa Vagabundagem", "Precisamos nos livrar dos norte/nordestinos, se não nunca vamos virar 1o mundo". É só isso que querem. Um status que os classifiquem como "os mais ricos e mais poderosos" e que permita que o sejam incondicionalmente. Que façamos então como os EUA e a Europa? Deixemos metade do mundo morrendo? Pra quê? Muito simples. Do que vale o bom estado dos outros, se tal situação estrague ou diminua as próprias riquezas? É o pensamento que circunda toda a elite. Por mais que tentem negar. O que querem, é crescer cada vez mais. Não importa quantos morram no caminho. Mas, afinal, são os pobres que impedem nosso desenvolvimento, não é? Eles são os culpados. Que culpa eles têm de não ter acesso à POSSIBILIDADE de crescer? O país (na verdade, o mundo) tá nas mãos de uma elite que é alienada por escolha própria. Alguns ainda fazem algumas doações e usam camisetas como "Vamos ajudar o mundo", tentando livrar a própria consciência. Mas, ainda assim, fazem parte de uma elite alienada. Alienada, talvez não a ponto de não ter vergonha de expor características como fascismo, ignorância, falta de ética, mas sim por enganar também a si próprio. Como que o país vai melhorar, como um todo, se as pessoas que tem acesso à educação de qualidade, que poderiam usar a capacidade de pensar, preferem fechar os olhos e afirmar que a culpa é do governo?

Por Gabriela, com algumas adaptações de frases de Edson

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