(aglutinação de dois e-mails enviados a uma amiga, Gabriela Freller
Por Edson Bossonaro


A questão das campanhas ''coma menos carne'', ''apague uma luz'', ''planeta verde'', ''associação das socialites entediadas em busca de conforto para aplacar a consciência dos apêndices de sua ostentação (óbvio, não existe)'' é uma combinação de hipocrisia, ignorância por conveniência, autodefesa - o famoso eu faço a minha parte - e um implacável rancor interno por, não tão ao fundo assim, saber que aquilo tudo é responsabilidade deles sim, e SÓ deles.
Nós entramos perigosamente na era do politicamente correto, dos problemas atuais que adquirem proporções irrefutáveis - não dá mais para se negar aquecimento global, fome na África e poluição de rio e lençóis freáticos - serem vistos como facilmente solucionáveis por meio de algumas coisinhas individuais, como separar lixo, não lavar tanto o carro e não jogar lixo na rua.
É a era dos marketeiros e publicitários descobrirem a genialidade (para a empresa) da jogada com tais verdades universais, tirando a responsabilidade corporativista-fundiária e corporativista-empresária sobre as questões sociais e ambientais (que estão descaradamente um desastre), e simultaneamente aumentando seus lucros.
É a era das empresas possuirem Órgãos de Direitos Humanos e de Ajuda Ecológica, mas que na realidade servem para despachar sindicato dando pequenos direitos e privilégios, como um bonézinho legal escrito ''Equipe Ambev'' que faça o operário sentir-se parte de tudo aquilo e musiquinha durante o serviço (como as montadoras de automóveis -praticamente todas - fazem) e esconder a verdadeira sujeira, além de aumentar os lucros da empresa: a coisa mais fácil do mundo é ter um selinho verde num saco de açúcar, ou uma caixa da campanha do agasalho numa loja Marisa ou Daslu (mão de obra escrava e isenção - que ninguéem sabe como - de impostos).
É sempre assim: uma elite fudendo com o mundo, jogando a culpa para aqueles que sofrem com isso ou são usados para tal e mostrando carinha sorridente para a imprensa e para o exterior.
Parece que a hipocrisia se transformou em jogo publicitário, e mais uma vez em forma de manutenção do status quo.
Depois ninguém sabe porque me dá vontade de vomitar quando vejo uma socialite usando uma camiseta ''salve os golfinhos'' ou ''eu reciclo, e você?''.
Realmente. O capitalismo é muito inteligente como máquina mercantil.
Filhadamputamente, mas inteligentemente, sabe como transformar as críticas e possibilidades de críticas em armas e até fazer com que elas gerem lucro.
A máquina é tão forte que mesmo indiretamente consegue fazê-lo. Olha só: você não vê propagandas de televisão vendendo roupas do che, ou falando que o ''capitalismo é uma bosta, então compre bonés hippies''. É claro que existe o famoso hippie chique, lojas e até fábricas especializadas em produzir roupas para alternativos. Mas isso é só uma consequência de um grupo/ nicho social já ter acatado a idéia de que é bacana ser alternativo, portanto torna-se um jogo ''interessante'' (para eles) proporcionar a eles taisindumentárias. Você não vai ver marketeiros lançando a idéia de que não interessa você trabalhar para caramba, e que é essencial se livrar das realidades carcereiras (como é muito explorado por propagandas de carros ou tênis, quando eles mostram um cara 'se libertando' quando se atira em uma trilha para buscar sossego longe da sociedade), até porque à um primeiro momento isso pode ser muito perigoso para eles, obviamente.
Então, o fato de pessoas usarem camisetas e bolsas com o símbolo hippie, ou uspianos sem ideologia acharem bonitinho usar camisetas do che, vem, grande parte, da necessidade que algumas pessoas tem de se encaixar em algum estereótipo, mas ao mesmo tempo de se desvincilhar dos mesmos: ninguém quer ser igual a todo mundo, é desesperador se ver perdido em meio a uma enorme massa improfícua exatamente igual a você. Ao mesmo tempo, o contato constante com opiniões (que cada vez mais surgem) que denunciam tais modos de vida, mesmo caso a pessoa tente, em meio a um espasmo autodefensivo de ignorar/não concordar com tais críticas, elas vão ficar no subconsciente cutucando o dia a dia, e vão se acumulando, até que atingem aquela suspeita de que aquilo realmente está errado, não é o caminho para a felicidade, que havia permanecido, por muito tempo, latente, provocando uma crise existencial tremenda. É a mesma história de uma garota que coloca um vestido que no fundo julga que é feio, mas que só admite quando outra pessoa fala.
Em meio a isso tudo, encontra-se a válvula de escape: o marketeiros encontram outra mina de ouro, as pessoas uma escapatória para grande parte de suas angústias existenciais e a máquina capitalista vai jorrando riquezas.Olha que bonito, todo mundo sai ganhando né? Pronto, está ai: criado o hippie chique, o fascista que escuta pink floyd e a perua que curte camisas ''paz e amor''
Mas a verdade é que a máquina capitalista é a única que ganha de verdade nisso ai. É ela que fica mais forte.
E é ela que continua ai, crescendo, matando
quando eu era menor, COMPREI uma camisa do che.. ai depois de um tempo, vi um texto com a mesma ideia desse criicando a hipocrisia de se comprar camisas desse tipo, desde entao minha camisa do che ta no fundo do armario, ja criando poeira de tanto tempo que eu nao uso.. haha, mas eu concordo muito com essa ideia do texto.
ResponderExcluirAh cara, mas não é tão assim tabém.
ResponderExcluirNão estou criticando o uso de roupas do che e tal.
De jeito nenhum! Muitas vezes isso é só um símbolo de que você apoia ou ao menos se identifica com tais ideais.
A idéia principal do texto não é bem criticar aqueles que as usam, e sim aqueles que usam como um estereótipo, logo, de nada serve.
Eu já conversei com você também, e sei que você não é assim.
Então pode tirar a camiseta do che do armário e usá-la a vontade. Ao menos mostramos que ainda estamos aqui, e que somos muitos.