A dissonância será bela

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quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Linguística, amor e revolução

Acadêmico e parnasianos se contorcem em sua estética conservadora ao ouvir dizer que uma língua se transforma e se adequa à linguagem. Sim, a linguagem é o sofrimento e a beleza que os acadêmicos não querem ver: a linguagem como denúncia da marginalização, da luta de classes, da exploração, do imperialismo, mas também como expressão imediata do homem situado, como abstração momentânea da síntese de um processo histórico de secularização e enaltecimento de uma relação altermundialista, ou o mesmo que dizer: de uma relação por unificação do homem que aos poucos, à medida que o ocaso das estruturas econômicas e políticas individualizantes se torna irrefutável, vai se instalando como valor universal. É essa totalização – a máxima totalização até hoje encontrada pelo homem – que abrange da estética à ética, descobre a estética da ética, bem como a ética na estética; é essa relação intrínseca à felicidade que timidamente chamamos “amor”.
O que chamamos por “amor” em nossa limitada linguística aburguesada traduz-se em centenas de sinônimos que expressam a forma do homem pós-moderno se relacionar com o mundo: paixão, diretamente ligada ao prazer, sentimento, prelúdio do casamento, fidelidade, sexo, ágape (ai, cristãos, cristãos; eterna dor de cabeça). Não, o amor é mais do que tudo isso. Uma vez declarado que a máxima das relações do homem se limita ao desejo ou à reunião fiel em torno de uma instituição burguesa que pouco expressa uma relação amorosa, mas sim uma necessidade imposta pelas condições materiais de se atribuir afeto a um número limitado de pessoas e garantir a hereditariedade dos bens – o casamento, está assassinado o viver. Uma vez dito que o amor é ágape, é doar sem nada receber em troca, está declarado o homem como essencialmente individualista, um fragmento irrefutável de uma totalidade que não recebe só por dar; ele ou dá por receber, ou então dá por dever moral.
As línguas se aprimoram à medida que se encurtam, que encontram palavras que expressem a essência – não compreendam mal: essência esta construída pela existência situada do homem, pelo significado que ele dá às coisas, e não como sequência do determinismo maniqueísta. No momento em que, para expressar o amor, não forem necessários 3 parágrafos e centenas de palavras (como aqui faço), nossa língua expressará, enfim, como reflexo das transformações materiais que determinam ou instigam o pensamento do homem e suas relações, a superação, a queda e a solução da antítese do nosso perverso mundo liberal.
Está para nascer um verbo que expresse a totalização do amor. Está para nascer uma sociedade que permita a totalização do amor.

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