Imagino o dia em que mais uma vez eu a verei a caminhar; seus longos cabelos morenos dançando melodiosos aos passos apressados; seu sorriso vai ser lindo, celebrando aquilo que ainda se há de amar neste mundo; você vai vestir aquele vestido de recortes de jornal com detalhes em laranja que lhe vestia quando eu, pela primeira vez, a vi. Você estará linda, como naquele quente Março em que, descompromissadamente, me reclamava o sol árduo e seco de São Paulo, enquanto eu, maravilhado, não compreendia outra beleza ou outra tristeza que não aquela que me convidava a ficar, me convidava a sentar: “só por mais alguns minutos” – prometia.
Pergunto-me se realmente fui capaz, noutro dia, permeabilizado pelas paixões, deixar seus olhos, abandonar seus lábios, me privar de seus risos e seus sorrisos. Quero mais do que ao mundo me arrepender, celebrar o matrimônio dos nostálgicos, dos ébrios e loucos que atravessam sua existência em abandono, melancólicos em súplicas, cansados de viver sozinhos em um vácuo de sentido. Quisera eu poder dissociar amor em partes; quisera eu poder atribuir ao amor um sentido menos abrangente, menos doloroso, menos belo, menos capaz de trazer felicidade, enfim, pois o sofrimento de uma vida plena de sentido seria então atenuado pelo absurdo de apenas existir. Quisera eu acreditar menos no homem, compreender menos a imutável, inalienável e absolutamente humana beleza que reside na complexidade do aprender a amar – amar um tudo indissociável, um mundo, uma idéia a criar esse mundo, amar amores pelos quais entender de forma paradoxalmente concreta e não concreta a construção em si – partindo da única certeza do homem: existir.
Sim, amei outras, amei outros, amei ideias, amei ideais e amei um mundo, amei o homem e a natureza em eterno matrimônio. É o amor essa máxima abrangência do emancipar-se de si; é o silêncio da completude, a sinfonia da unidade e o farfalhar confuso e desordenado de um mundo em nascimento, de um mundo em construção. É esse amor a unidade eterna do construir e existir: quando manifesto um latente porvir de um amor social é você quem eu manifesto em minhas lágrimas de dor, meus sorrisos de otimismo em promessas necessárias por serem capazes de tornar o futuro menos árduo, ou então meus desesperançosos e periódicos pessimismos infantis. É do seu sorriso ao cantar da mais bela ave que proclamo ao som idealizado de cada disparo; é a sinfonia absoluta de toda a beleza desse mundo, do existir ao não existir, que brado a cada amanhecer plúmbeo, a cada linha de minha reclusão que se não se mostrar conclusa decretará a morte absoluta deste eu que aqui se apresenta em sua única versão disponível, deturpado pela impossibilidade de distanciamento.
Quando eu a vir, meu amor, vou deixar-te ir embora, pois saberei que encontrar-se-á feliz. E assim fazem os homens tristes: compreendem que a promessa frágil de felicidade tão somente, até então, expressa em palavras é um eterno poema inacabado de incoerência; por essência incerto. Aquela indecência intransponível de ter-se um sentido à vida mas não poder amá-lo em sua totalidade – e meu amor, a totalidade não é uma somatória, mas a felicidade em si.
Minhas lágrimas beijarão seus sorrisos, e assim deverá ser. Foi tarde que aprendi a escrever poemas.
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