Sim, nós matamos Deus. Nos primórdios da existência humana, bem como nas comunidades prepotentemente definidas por “primitivas” pela civilização ocidental, a falta de explicações empíricas tidas como verdades para a maioria dos fenômenos, levou os homens a denominar a própria ausência de sentido: “Deus”. Baseados na matéria – ou na ausência da explicação da mesma – criaram a consciência, a ideia, o pensamento denominado Deus, ou o mesmo que dizer: o universo (e suas dimensões inalcançadas pela permanentemente inconclusa totalização dialética do homem) criou Deus, até então como simples abordagem fenomenológica, um produto metafísico da materialidade.
Em algum momento do desenvolvimento da história das sociedades, se desenvolveram condições materiais que reivindicavam uma necessidade maior de Deus. Reivindicavam mais do que uma abordagem metafísica e de existência unicamente possível enquanto vinculada à características culturais-científicas (ou a precariedade em si das ciências). Esse momento histórico foi o momento da organização civil, que despontou o surgimento da propriedade privada, do indivíduo, da luta de classes, das instituições civis e, entre elas, das instituições religiosas. Foi o momento em que a carência material – até então supostamente suprida por todos os sobreviventes – passou a existir; o momento em que uma classe sobrepujou-se à outra, que surgiram as religiões, e com elas a ideia - tanto menos lógica e pragmática quanto mais concreta - de que Deus criou o homem, invertendo a ordem dialética até então estabelecida: foi o homem quem criou Deus inicialmente pela ausência, mas o homem passou a definir Deus como matéria, esquecendo-se catastroficamente do processo dialético; esquecendo-se que a própria criação (e as teorias criacionistas) depende primordialmente da criação, pelo homem, de um Deus.
Passa-se então a entender que uma ideia superior (deus) criou a matéria, que o pensamento cria a materialidade, que a consciência cria o corpo; que Deus criou o universo; que Deus, partindo de um projeto prévio (bem como um ferreiro cria uma ferramenta a partir de um projeto prévio, nivelando o homem à condição de um mero objeto em-si, com uma essência prévia à existência) , criou o homem. E assim centralizou-se a questão teológica em teorias criacionistas, permeabilizadas pelo aprofundamento das condições materiais que levam massas cada vez maiores a exigir Deus.
Porém, a retórica teológica vazia, infunda, marcada por hipocrisias, imoralidades da própria Igreja e, principalmente, incapaz de dar vazão verdadeira ao sofrimento humano, foi aos poucos sendo deixada. O secularismo, bem como o agnosticismo e o ateísmo começaram a emergir como práticas se não existencialistas e materialistas, baseadas nos mesmos. Pode-se com vigor afirma a inexistência atual de Deus, até então inegavelmente existente como idéia – compartilhando-se ou não da crença, Deus existia como idéia, mesmo que negação.
O evangelismo cresce à medida que a renda se concentra, ou então se perpetua com níveis altos; massas sem perspectiva de vida, incapazes de escorar-se em uma verdade concreta quando estas se manifestam demasiado duras; uma massa desesperada, carente de esperanças; são essas que naturalmente vão se voltar ao pós-matéria, ao pós-existência; às promessas de contemplação em uma existência transcendental; pouco importa se não passa de uma questão de crença, de esperança em uma realidade incerta, inegavelmente incerta: a alternativa – levar uma vida pautada na matéria como ela se manifesta – é demasiado sofrível. O outro pólo desse evangelismo é a instituição religiosa, que se ainda acredita em suas pregações, certamente mantém-nas em segundo plano: a Igreja torna-se uma instituição patronal que encontra nas carências materiais de uma massa massacrada por um sistema econômico perverso a possibilidade de enriquecimento lícito, sobre a alegação de culto religioso, de liberdade de culto.
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