A dissonância será bela

A dissonância será bela

domingo, 27 de março de 2011

Esclarecer a história é evitar ilações equivocadas da atualidade

Caracterizar as revoltas do mundo árabe mediante um só aspecto unificador, o fato de governantes do Oriente Médio e Norte da África exercerem seu poder por décadas, é um erro tremendo que a mídia ocidental comete, deturpando todas as informações mediante uma ótica ocidentalista, o que leva, inevitavelmente, nós cidadãos a incorporar tais interpretações, uma vez que o acesso à informações condizentes com a realidade é muito complicado hoje em dia.
Não são os 42 anos de governo Kaddafi (ou os 24 do Ben-Ali, os 30 anos de Mubarak, os 33 do Saleh (Iêmen) ou os 40 do Bashar al-Assad (Síria)...) os únicos motivos para o estopim deflagrado no mundo árabe. Em algumas nações - para não dizer que estas são o grupo majoritário entre as afetadas pela onda de protestos - os anos de governo, ou o autoritarismo não de forma alguma relevantes para o levante populacional.
O tunisiano Ben Ali desde o início de seu governo voltou a sua política econômica totalmente ao ocidente. O mesmo fez Mubarak. Bahrein, Iêmen, Omã, Marrocos e Argélia (somente após uma invasão americana que impôs um governo autoritário pro-ocidente) seguiram a mesma linha. Os governos ocidentais instalavam suas transnacionais pelas cidades árabes, o petróleo era explorado pelas gigantescas corporações americanas e inglesas, principalmente, enquanto a porcentagem paga de royalties (50%, após a OPEP) que não supria nem mesmo a compra dos produtos a base de pretróleo processados no ocidente. A economia era embasada quase que totalmente neste "ouro preto", sem nenhum investimento em diversificação, e portanto importando uma quantidade absurda de alimentos. Os programas sociais então nem se fala. Os protestos foram, acima de tudo, por melhor qualidade de vida. Foram muito antes contra a elite exportadora de petróleo e presidentes ocidentalizados que abandonavam o país à própria sorte, do que o fato de serem ditaduras.
Nós do ocidente temos uma dificuldade tremenda - que eu chamaria, na realidade, de prepotência - de aceitar uma cultura diferente da nossa. A ordem global econômica que antagoniza os desenvolvidos do norte neoimperialista e os subdesenvolvidos do sul, estabeleceu inevitavelmente uma ordem global cultural, responsável pela imposição cultural exercida pelos primeiros em relação aos segundos. A demonização de ditaduras (que na realidade mascara os interesses econômicos e geopolíticas com jargões morais de apoio unânime - direitos humanos, liberdade e blábláblá) exercida pelo ocidente contrasta com a aceitação de ditaduras, mediante qualidade de vida, do oriente.

Analisar a história da Líbia é compreender a eterna hipocrisia do ocidente, o papel irresponsável da mídia nacional e a propotência cultural que exercemos ao discutirmos esta questão tão delicada no ocidente. Gostaria eu de ter acesso às informações mais detalhadas de todos os protestos, quem os lidera, quantos são, os propósitos, de todos os países aos quais a onda revolucionária se estende, mas infelizmente também sou vítima do corporacionismo midiático.

Muamar Kaddafi, filho de beduínos nômades líbios, teve formação militar em londres e tornou-se tentente. Fundou, em 1966, a União dos Oficiais Livres, organização inspirada na revolução nasserista que, até 1969, lutou contra a monarquia do Rei Idris, um monarca que absolutamente nada vez a não ser aliar-se aos interesses petrolíferos dos EUA e Inglaterra.
Consolidada a revololução líbia, Kaddafi assumiu, já com enorme apoio da população, e tratou logos nos primeiros anos de expulsar toda e qualquer base militar ocidental e nacionalizar a produção de petróleo. O país africano, detentor da nona maior reserva de petróleo do mundo, fixou um reajuste do preço do petróleo, confrontando, pela primeira vez no mundo árabe, as imposições imperialistas, especialmente americanas. Seguiu-se então os reajustes da Argélia, e então deflagrou-se a série de reajustes que auxiliaram a consolidação da OPEP.
Em 1973, após a guerra do Yom Kippur, o embargo aos EUA exigindo retirada das tropas israelenses do territórios sírios, egípcios, jordanos e palestinos, foi liderado por Kaddafi.
O capital gerado pela nacionalização do petróleo possibilitou a diversificação econômica e a modernização industrial e agropecuária. E o fez como deveria, descentralizando os meios de produção. Promoveu uma reforma agrária que distribuiu 10 hectares a todos que se propusessem a trabalhar na terra, além de investimentos em logística e tecnologia de produção. Os investimentos também se estenderam a outros setores sociais, como educação, saúde e infraestrutura, que tornaram-lhes os melhores da África. A renda per capita e a distribuição de renda também indicavam uma considerável melhora no país. Apresentou projetos de estabelecer conselhos populares de influência direta no governo, sem intermediação de partidos. A Líbia apresentou nos próximos anos o melhor quadro social da África, e um dos melhores do mundo árabe - claro que isso não significa tanto assim em comparação ao quadro social ideal, mas já representa uma reviravolta espetacular diante da Líbia monárquica ocidentalista de antanho. Como não poderia ser diferente, a distribuição de renda, nacionalização de alguns meios de produção, a dissolução da elite petrolífera e a reforma agrária descontentaram a elite Líbia, assim como o ocidente.
Kaddafi tornou-se a principal figura pan-arabista no período pós-nasserismo. Empreendeu longos debates em apoio aos povos que sofriam do imperialismo americano ou intervenções militares-econômicas, opondo-se às ditaduras do Marrocos, Emirados Árabes Unidos e Filipinas, todas impostas por intervenções do ocidente. Foi um fervoroso aliado da causa palestina e personificou as maiores críticas ao expansionismo israelense. Apoiou os aiatolás iranianos contra a invasão iraquiana de Saddam Hussein, empreendendo duras críticas à falsa abstenção ocidental diante da mesma, uma vez que apoiavam Saddam.
O descontentamento das classes abastadas e do ocidente, que viam seus interesses ameaçados, levou os EUA a colocarem a Líbia na lista de "patrocinadores do terrorismo".
Em 1981, o presidente americano Reagan promoveu um ataque aéreo à Líbia, que resultou em um breve confronto militar, que terminou com um embargo americano e ocidental à Líbia. No plano interno, a oposição interna formou a Frente Nacional de Salvaçãoda Líbia que tentou assassinar Kaddafi.
Em 1986, acusada de um atentado a uma casa noturna alemã que matou 3 militares americanos (que depois, foi provado, não tinha nada a ver nem mesmo com a Líbia), A Líbia foi vítima de outro ataque promovido por Reagan, este com baixas civis e dezenas de feridos. Desta vez a Líbia reagiu, com três ataques a aviões americanos, ingleses e franceses.
Devido a tais ataques, a Líbia sofreu sanções da ONU, que desde 1992 até 1999 isolaram a Líbia e aprofundaram a situação econômica e social interna, obrigando Kaddafi a promover cortes em seus projetos sociais.
Somente em 1999, quando aceitou o julgamento pelos ataques aos aviões, as sanções terminaram. A partir de então, Kaddafi adotaria um discurso totalmente diferente do anti-imperialista de antes. Nos anos seguintes, progressivamente se voltou ao ocidente, abrindo novamente às transnacionais e privatizando as reservas de petróleo às transnacionais British Petroleum, Francesa Total, ENI e Texaco.
A partir de então, o ocidente passou a vê-lo como aliado.

O discurso ora anti-imperialista, ora ocidentalista, acabou por agradar - melhor seria dizer confundir - a população, conseguindo se manter mais de uma década depois das mudanças que promoveu.
Em 2011, um povo saturado pelas contradições de Kaddafi, desgastado pela piora no quadro social, levantou-se com o estopim tunisiano.

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