"Carta aos meus alunos, por Tânia Macedo, professora da Letras-USP
por Ana Cláudia Borguin, segunda, 14 de fevereiro de 2011 às 11:46
Muitas vezes, quando em minhas aulas as utopias são referidas (Revoluções africanas, o 25 de Abril, por exemplo), o desdém preenche a sala, seguido de um desânimo que, uma vez, foi verbalizado por um aluno: “Isso tudo ocorreu há tanto tempo! Hoje somos diferentes, estamos em outro momento. Não acreditamos mais em nada, não queremos saber de nada”.
Longe de ler essa resposta como um conflito de gerações, tomo-a como indício da situação em que o capital, com a sanha consumista, traduziu-se na rapidez dos relacionamentos, das “amizades” que se formam ao toque de uma tecla que leva ao Facebook ou ao Orkut e se desfazem com a mesma facilidade,à torrente de informação e à pobreza de experiências, que conduziram à descrença, ao imobilismo e aos finais de semana regados a ecstasy e outros “paraísos artificiais”. Será realmente impossível acreditar?
Escrevo-lhes porque uma série de acontecimentos recentes apontam para o florescimento do comunitarismo que sobrepuja a subjetividade auto-centrada, a “ego-trip” e o imobilismo. Falo, é lógico da Revolução do Jasmim e do que se passou no Egito nos 18 dias entre 25 de janeiro e 11 de fevereiro de 2011. Para muitos são apenas notícias de lugares distantes, daquelas que inundam a sua sala de visitas a partir da luz bruxuleante das televisões.
Esperem! Tenham um pouco mais de paciência. Esses acontecimentos merecem muita, muita atenção. Que tal iniciarmos como uma personagem de Luandino Vieira que diz: “É preciso dizer um princípio que se escolhe: costuma se come-çar, para ser mais fácil, na raiz dos paus, na raiz das coisas, na raiz dos casos, das conversas.”?
Então, podemos dizer que tudo começou com um ato desesperado de um jovem tunisiano, Mohamed Bouazizi, que não podendo mais sustentar sua família com a venda de frutas na rua, confiscadas por policiais corruptos, ateou fogo ao próprio corpo em protesto. Outros jovens entenderam o significado do ato e a partir de movimentação intensa, tomaram as praças. Se foi o desespero que impulsionou o movimento, a comunicação entre os seus participantes foi bem ao gosto de vocês: pelos celulares, computadores, IPods. E houve canto, e houve rezas, mas também gás lacrimogêneo, pedras, tiros e mortes. Muitas mortes. Não nos iludamos, pois as mudanças de fato cobram o seu salário em sangue.
E o ditador da Tunísia, Bem Ali, apesar de apoiado pela França, Espanha e Itália, não resistiu à pressão dos que saíram às ruas e caiu. Mas quando se sente o sabor da liberdade e se tem consciência da força do coletivo, não é possível parar. Foi então a vez do Egito. Dezoito dias da massa enfrentando tanques e a pressão internacional de países como Estados Unidos e Israel.
E se Obama, no primeiro momento disse: “Mubarak é um bom homem. Ele fez coisas boas. Manteve a estabilidade. Continuaremos a apoiá-lo porque é um amigo”, teve depois aceitar a derrota que a população egipcia lhe impôs, porque a Praça Tahrir se encheu cada dia mais. E como na Tunísia, houve luta, orações, cânticos e mortes que derrubaram o ditador Mubarak o qual, com seus acordos de paz com Israel, permitira que se fechasse a faixa de Gaza, condenando o povo palestino à mais aviltante miséria.
No momento em que lhes escrevo Iêmen e Argélia começam as manifestações. Prestem atenção. Uma corrente de crença e ação se alastra. Os seus elos mais fortes são jovens como vocês: com a mesma vontade de dignidade, emprego e felicidade. Pensem nisso quando lhes pedirem para participar de um Ato Público, assinar um documento pela melhoria do ensino ou discutir sobre os problemas da Universidade e da nação.
Lembrem, um pouco só, do texto de Luandino que lhes citei acima e que também diz: “Os pensamentos, na cabeça das pessoas, têm ainda de começar em qualquer parte, qualquer dia, qualquer caso. Só o que precisa é procurar saber.”
Procurem, ao menos, saber. Depois fica mais fácil agir.
Tania Macêdo"
Não pedi permissão para publicá-lo, e por isso devo desculpas à autora. Não o deixei de pedir, pois pretendia me apropriar de seu texto que, embora breve, foi tecido com uma beleza e simplicidade maravilhosas, um manifesto por justiça e igualdade. Fui invadido pela esperança, por mais um impulso à já conhecida necessidade de lutar.
E lutar não significa buscar apaziguar sua consciência mediante o fardo de saber que todos nós ajudamos a constituir todas as perversidades do nosso sistema econômico, muito menos seguir o estereótipo do barbão, roupas bixo-grilo, gritar discursos demagógicos para a platéia vibrar e quebrar um vidro de vez em quando. Não implica em adotar uma ideologia de fachada e ir a passeatas.
Vi uma cena que me deixou extremamente triste no último ato contra o aumento tarifário do transporte público. Um jovem - deveria ter por volta de 15 anos, vestindo roupas punks - distribuindo socos nos ônibus, mostrando o dedo do meio para o motorista e colando pôsteres que tapavam a vista dos mesmos, que tinham que descer e retirá-lo com as mãos, enquanto escutavam uma série de insultos.
Por mais particular e extremo que este caso pareça, é de fato parte dos nossos movimentos da juventude, que não compreendem o que é tática, estratégia, muito menos se importam com a repercussão que seus atos terão na mídia conservadora e nas críticas ao movimento de modo geral, que podem colocar em xeque as nossas causas,mas que buscam em movimentos adrenalina, diversão para uma quinta feira a tarde.
Quando falo em luta, também não me refiro a somente atos por causar pragmáticas, para depois irmos para nossas casas e não discutirmos mais o assunto até o próximo ato.
Hoje o mundo árabe se levanta contra a opressão por parte de governos ditatoriais direitistas que se apoiam na Europa e EUA, deixando a população a própria sorte, sofrendo do desemprego, educação precária e alta de alimentos, entre tantas outras carências. A crise adquire proporções imensuráveis, atingindo em cheio os alicerces do neoliberalismo. Na América Latina nunca se fez tanto pela população, nunca houve tanta participação política nem se trabalhou tanto pela integração regional.
O momento se mosta propício a grandes movimentos, revoluções. Mudanças NECESSÁRIAS (que carregam a palavra tão temida e demonizada pela direita e intelectuais que acham legal ser apartidário) radicais em toda a nossa estrutura econômica e ,por conseguinte, política e social.
Edson - PS: desculpe pelos erros ortográficos que devo ter cometido e a deplorável forma como estruturei o breve texto, mas estou com muita pressa e não tive tempo de relê-lo.
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