A dissonância será bela

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quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Sobre viver e "ser feliz"

Por Gabriela
É possível afirmar, sem hesitar, que um dos maiores problemas da nossa sociedade é o egoísmo. Indiscutivelmente. Todo mundo sabe disso. Já se tornou até um clichê. É fácil perceber que a maior parte de nossas ações é fruto de um pensamento completamente egoísta, que visa insaciável e unicamente o próprio bem-estar. A origem do excesso dessa tal busca é o que procuro entender.
Desde sempre, o homem, como qualquer outro animal – que é o que nós somos – , tem tendências naturais a lutar pela própria sobrevivência e benefício. É uma característica extintiva, uma lei natural. Mas esta, acho bom declarar, não acredito que seja um grande mal da sociedade. A busca pelo bem coletivo, afinal, é inseparável da busca pelo bem próprio. Tal aspecto pode também ser facilmente observado em outros animais, que seguem o extinto de sobrevivência mas “sabem” (e coloco as aspas no verbo saber porque os demais animais foram beneficiados por não ter tal característica) da necessidade de se viver em bando.
Mas, como sabemos, o homem (infelizmente) não é como os outros animais. Ou, pelo menos, os homens acreditam poderem ser diferentes.
http://www.youtube.com/watch?v=DRJqrLd7MrE (Esse vídeo ilustra bem a ideia. Assistam)
O homem tem a incrível capacidade de acreditar que não depende dos outros seres vivos – sejam estes homens, vacas, cachorros ou plantas – para “ser feliz”. O homem trapaça. Mente. Manipula. Engana. Mata. Convencendo a si mesmo de que, assim, com um aparente bem-estar momentâneo e hedonista, se aproxima da felicidade. Mas, o que talvez não saibam, é que prazer é diferente de felicidade. O famoso egoísmo pode até ser um simples caminho para o primeiro, pode fomentá-lo, pode ser útil. Mas, sem dúvidas, é um imenso obstáculo para o último. Enquanto todos os seres humanos não perceberem que felicidade depende do outro, sou obrigada a lamentar que não acredito que possamos ser felizes.
Já o bem-estar (prazer, satisfação, chame como quiser (mas não de felicidade))... O bem-estar é facilmente alcançado. A mídia constantemente investe nele. Mas, é claro, denominando-o tendenciosamente de felicidade. “Coma tal televisão e você será feliz”; “Coma tal produto, e estará feliz”; “Alugue tal casa, é o caminho para a felicidade”; “Use tal maquiagem e você nunca vai se sentir tão feliz”; “Faça tal dieta para alcançar o corpo dos sonhos e ser feliz”.
A mídia é inteligente. É muito fácil nos convencer a fazer o que querem alegando que isso beneficiará a nós mesmos. Alegando que assim seremos felizes. Mas tem uma contradição nisso tudo. Compramos uma televisão que “nos trará a felicidade”. Mas, passa-se um mês e, então, para ser feliz, precisamos comprar outra televisão. Felicidade é, então, apenas um estado temporário de espírito? Felicidade é algo que exige que você compre algo novo a cada mês? Por favor, que não acreditemos nisso. Felicidade é um processo. Não é algo a ser alcançado através de uma compra. Não é algo para o qual o caminho muda conforme a moda. Não. Isso não é felicidade.
Sei que felicidade não é um termo concreto. O que cada um chama de felicidade varia muito. Por isso, gostaria de deixar claro, mais uma vez, que, para mim, felicidade não é sinônimo de bem-estar. Tenho que certeza que muitas pessoas não concordarão com meu texto, alegando conseguirem ser felizes apesar das dificuldades. Dizendo que felicidade é você se contentar com o que tem, ou coisas parecidas. Mas, mantenho minha posição. Isso não é felicidade. Você pode estar satisfeito. Pode estar cômodo. Você pode estar contente. Você pode até estar alegre. Mas não é o que eu chamo de felicidade. “É melhor viver do que ser feliz”. Talvez a necessidade de tentar ser – ou aparentar – feliz impeça muitos de viverem. Já a felicidade que eu enxergo só poderá existir quando todos estiverem vivendo (e não sobrevivendo). Mas, independentemente disso, você pode sobreviver dezenas de anos com satisfação, egoísmo e contentamento. Sei que essa é a escolha da imensa maioria.

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